O Horizonte na Janela: Crônicas de um Camper pela Escandinávia - Capítulo 9
Capítulo 9: O Sol Que Não Se Põe, Churrasco no Laavu e a História de Loviisa
Com o GPS travado em direção a Helsinki, fizemos uma parada estratégica em Kalajoki para esticar as pernas e montar acampamento por uma noite. O lugar é lindíssimo, um daqueles pontos onde os nativos encostam os carros ao fim da tarde para apreciar o pôr do sol no horizonte. Mas, nesta época do ano, o pôr do sol é uma ilusão poética. Presenciamos um efeito fascinante: o sol desce mais ao norte, toca timidamente a linha do horizonte, mas simplesmente recusa-se a cair. Ele fica flutuando ali, banhando tudo com uma luz mística por horas, até começar a subir novamente. É o místico Sol da Meia-Noite.
A Lizzie, nossa eterna rainha do camper, é sempre a primeira a desembarcar para fazer o reconhecimento do terreno, sempre sob nossa atenção redobrada. Olhando para ela explorando o ambiente, sorrimos. Esta é a maior vantagem de morar em uma casa sobre rodas de sete metros: nossa sala pode ser compacta, mas o nosso quintal muda todos os dias e é do tamanho do mundo.
Com o tempo melhorando a cada dia, traçamos rota para uma verdadeira raridade na Finlândia: uma área de apoio gratuita para caravanistas com água potável, ponto de descarte de águas cinzas e eletricidade!
Aproveitamos a estrutura para tirar as teias de aranha das nossas bicicletas — afinal, fazia mais de dois meses que não pedalávamos. A Lizzie, que não é boba nem nada e não tem muita paciência para longas caminhadas, foi a primeira a se acomodar em sua "carruagem" (reboque acoplado à bike). Pedalamos por uma ciclovia impecável até o vilarejo vizinho para reabastecer os armários.
Foi nessa fase que descobrimos uma das tradições mais fantásticas da cultura finlandesa: os Laavu (abrigos abertos). Trata-se de uma estrutura de madeira rústica, projetada para proteger do vento e da chuva enquanto se aproveita o calor de uma fogueira feita logo à frente. É um espaço público, mantido com carinho, que conta com grelha e um depósito de lenha à disposição de qualquer visitante.
Aproveitamos a estrutura do Laavu e fizemos aquilo de que estávamos morrendo de saudades: um autêntico churrasco na brasa! Modéstia à parte, ficou espetacular.
No dia seguinte, a cozinha de bordo operou em clima de festa de fim de ano: preparamos um lombo/presunto com abacaxi e maçã na nossa fiel escudeira, a Airfryer. Como dizem os italianos: mangiare, fa bene!
Bicicletas guardadas, levantamos acampamento. Ainda faltavam mais de quatro horas de viagem até Helsinki, mas nós somos como a tartaruga: carregamos nossa casa nas costas e andamos devagar, sem pressa de chegar.
Lançamos âncora em Lahti, uma cidade belíssima rodeada por um lago bem movimentado, onde os locais passeiam pelas margens repletas de restaurantes. Estacionamos em uma área própria para campers (sem serviços) para almoçar e decidimos pernoitar por ali.
Como o limite de permanência ali era de 24 horas, no dia seguinte nos mudamos para o meio da natureza, à beira de um lago calmo de águas escuras.
Bastou uma leve subida na temperatura para vermos os finlandeses mergulhando sem hesitar. Ali também havia um Laavu, mas, infelizmente, desta vez a lenha tinha acabado. Os hambúrgueres artesanais que tínhamos preparado para a grelha tiveram que esperar uma próxima oportunidade.
Logo a chuva fina e o tempo carrancudo voltaram. Quem mora em camper sabe: a gente vive de energia solar, e quando o sol some, a gente corre para a tomada! E foi exatamente o que fizemos. Chegamos a Loviisa e nos instalamos em uma área completa com eletricidade, água e duchas quentes, bem no centro desta cidadezinha extremamente simpática.
A história de Loviisa é fascinante: o local recebeu esse nome em homenagem à Rainha Luisa Ulrica da Suécia (Loviisa Ulrikka, em finlandês). Irmã do rei Frederico, o Grande, ela nasceu em 1720 e tornou-se rainha ao se casar com o rei Adolfo Frederico. Em 1752, durante uma visita real à região — que na época pertencia ao Reino da Suécia —, o rei Adolfo rebatizou o antigo vilarejo em homenagem à sua amada esposa. Caminhar por ruas que carregam séculos de história é um dos maiores presentes da estrada.
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Saindo de Loviisa, a capital nos espera. Quem sabe se no próximo capítulo nossos pneus já não estarão pisando o solo estoniano em Tallinn?
A navegação continua. Até o próximo capítulo!
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