O Horizonte na Janela: Crônicas de um Camper pela Escandinávia - Capítulo 7

Capítulo 7: A Glória da Pesca, Histórias de Guerra e o Enigma da Fronteira

Viver a rotina de um país também significa entender como o seu povo se alimenta. Na nossa ótica e experiência pela Noruega — mantendo claro que evitamos grandes metrópoles como Oslo ou Bergen pela óbvia dificuldade de estacionar e pernoitar com sete metros —, os supermercados de pequeno e médio porte nos trouxeram algumas surpresas. Eles não possuem a variedade infinita a que estamos acostumados. Há, sim, uma oferta maravilhosa de peixes e camarões congelados (dos quais nos fartamos), mas uma coisa nos saltou aos olhos: em cada mercado, por menor que fosse, havia uma prateleira enorme, uma verdadeira parede de guloseimas, balas e doces de todos os tipos. E o mais intrigante? Você olha ao redor e as pessoas simplesmente não são gordas. Um mistério nórdico a ser desvendado.
Deixando os doces de lado, escolhemos uma área pertinho de um fiorde para passar a noite. Ali, dividimos o espaço com um casal polonês incrivelmente simpático e alegre, que curtia o dia sentados em suas cadeiras de praia, ouvindo música. 
A cinco minutos de caminhada dali, descobrimos uma praia deslumbrante e superestruturada, com banheiros e ducha fria. O gramado estava salpicado de barracas coloridas, provavelmente de corajosos viajantes desbravando as estradas norueguesas de bicicleta.
Foi nesse clima que finalmente cedi à pressão da minha esposa, que é apaixonada por pescaria. Compramos duas varinhas de pesca e fomos à luta! Escolhemos uma plataforma perfeita que avançava para o mar. No primeiro dia, porém, a nossa única façanha foi perder uma isca artificial e não ver nem a cor de um peixe. Não desanimamos.
Mudamos de spot e fomos para um camping junto a uma marina impecável. 
Disseram que ali o mar estava generoso. Jogamos a linha e, no primeiro arremesso, fisgamos um Paloco (ou Saithe), peixe muito conhecido nos mercados do Brasil e de Portugal. Era um exemplar jovem, de umas 600 gramas — embora a espécie possa passar dos 10 kg —, e ele voltou para a água. 
Mas não demorou muito para a linha esticar com força: era o imponente Bacalhau do Atlântico. Que briga para tirá-lo da água! Valeu cada segundo. Conseguimos fisgar três deles; o maior passava dos 60 centímetros e pesava facilmente uns 3 kg. Saciada a nossa diversão da pesca esportiva, todos os gigantes voltaram sãos e salvos para o mar.
Como o dia insistia em uma chuva fina, aproveitamos para resolver o mistério do para-brisa. Fomos até a Carglass na cidade de Finnsnes. E aí está a beleza da estrada: após uma longa conversa com o técnico da empresa, ele nos deu uma aula de sensatez. Explicou que não valia a pena trocar o vidro agora. No verão, as estradas norueguesas estão cheias de obras e o risco de levar outra pedrada no para-brisa novo no dia seguinte é altíssimo. Ele nos mostrou que, pela legislação da Noruega e da Finlândia, se a trinca está do lado do passageiro e não afeta a visão do motorista, pode-se rodar tranquilamente. Com o coração aliviado e uma economia na carteira, passamos no mercado para o estritamente necessário e colocamos o pé na estrada rumo ao norte.
Paramos para almoçar às margens do deslumbrante fiorde Lyngen. Ali, deparamo-nos com uma trilha construída durante a Segunda Guerra Mundial. Como havíamos visto no forte mais ao sul, o norte da Noruega também guarda vestígios profundos e dolorosos da ocupação alemã de 1943. A história da guerra ainda caminha lado a lado com a natureza bucólica do país.
E por falar em caminhar, nossa rainha Lissie teve seus momentos de glória. Dormimos em uma área colada ao mar, e ela se esbaldou com a liberdade, ignorando o frio e o tempo carrancudo. A Lissie adora cheirar cada centímetro desse mundo novo, o que nos exige cuidado redobrado. Não sabemos que gosto ela encontra em pedras e galhos, mas ela parece saber! Por recomendação local, reforçamos o remédio de pulgas e carrapatos, já que nesta época a vida selvagem espalha esses parasitas pelas matas. Todo cuidado é pouco para a dona do camper.
Com o tempo fechado, encostamos em mais uma marina funcional para dar carga nas baterias. Ali, travamos amizade com um italiano de Roma veterano de estrada. Ele nos contou suas aventuras pela Noruega e Finlândia, mas o que nos fez arregalar os olhos foi seu relato sobre viajar para Marrocos — dirigindo de Roma até a Espanha e cruzando o Mediterrâneo de balsa. Ele garantiu que é absolutamente seguro. Olhamos um para o outro... será que um dia o camper pisa na África?
Aproveitamos a parada para usar as máquinas de lavar e secar e colocar nosso armário em ordem.
Estávamos muito perto da fronteira com a Finlândia. Sentamos para traçar os próximos passos, mas há um fenômeno estranho que acontece com quem viaja por aqui: cada vez que pensamos em apontar a bússola de volta para o sul, o coração aperta. Como se despedir dessa liberdade e dessa beleza brutal?
Decidimos esticar a corda só mais um pouco. Seguimos margeando os fiordes até a cidade de Alta.
Conhecida como a "Cidade das Luzes do Norte" por suas auroras boreais no inverno, Alta é um santuário. Ali encontramos as famosas gravuras rupestres pré-históricas, Patrimônio Mundial da UNESCO, e a belíssima Catedral das Luzes do Norte. Descobrimos também que ali perto fica o famoso Sorrisniva Igloo Hotel, feito inteiramente de gelo no inverno, e que a região é um paraíso dos extremos: o rio Altaelva é considerado por muitos o melhor rio de pesca de salmão do mundo (com exemplares que passam dos 20 kg!), enquanto nos fiordes habitam o Bacalhau do Atlântico e o monumental Halibut, um peixe plano gigante de fundo que pode facilmente ultrapassar os 100 kg.
Deixamos Alta para trás com a mente flutuando entre salmões gigantes, bunkers da segunda guerra e estradas sem fim. O mapa mostra que as linhas divisórias estão a poucos quilômetros. O termômetro cai, o horizonte se transforma e o silêncio do norte se torna quase ensurdecedor.

O que nos aguarda na curva que vem a seguir? Estaremos nós ainda sob o domínio das leis norueguesas, ou nossos pneus já pisam o solo místico dos mil lagos da Finlândia?

O próximo capítulo guarda essa resposta.


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