O Horizonte na Janela: Crônicas de um Camper pela Escandinávia - Capítulo 6

Capítulo 6: GIGANTES DO MAR, O VIDRO TRINCADO E A MAGIA DE SENJA 
Continuamos nossa jornada sob aquela chuva persistente. Para o início do verão, esperávamos um clima mais seco, mas fomos lembrados de que os efeitos climáticos globais mudam tudo, e a umidade teimava em ficar. Na Noruega, o tempo é um organismo vivo: muda em um piscar de olhos. Não é raro ter uma tarde ensolarada com agradáveis 20°C e, no início da noite, ser surpreendido por um chuvisco gelado com sensação térmica de 8°C.
No caminho para Andenes, decidimos estacionar literalmente dentro de uma floresta norueguesa para passar a noite. 
Ganhamos vizinhas inusitadas: várias ovelhas rodearam o camper e pareceram realmente gostar da nossa companhia, pastando calmamente ao nosso redor. O tempo até melhorou um pouco... mas foi só um pouco.
Logo a chuva voltou e tivemos que seguir em frente. Mesmo com o céu carrancudo, a paisagem ao redor continuava maravilhosa.
Nesse trajeto, passamos por um supermercado e decidimos nos dar um luxo: finalmente compramos os famosos camarões noruegueses e o autêntico bacalhau local. Mas aqui vai um segredo de viagem: o bacalhau congelado que se compra nos mercados da Noruega não é igual ao que estamos acostumados no Brasil ou em Portugal. Ele é fresco, não é salgado! A vontade de comer peixe bateu mais forte e aceitamos o desafio.
Minha esposa assumiu as panelas no camper e preparou uma refeição digna de um restaurante com estrela Michelin. Estava uma delícia, e a foto no nosso arquivo não me deixa mentir.
Decidimos passar a noite em um camping de frente para o mar. O clima resolveu testar nossa estrutura: ventos fortes de mais de 50 km/h sopravam do oceano, fazendo os sete metros do camper balançar como um barco. Olhávamos pela janela nos perguntando quando aquela chuva finalmente nos daria uma trégua.
E o presente veio na manhã seguinte. Depois de tanto vento e tempestade, amanheceu um dia perfeito para navegar. O sol apareceu triunfal e pudemos embarcar em uma das expedições mais esperadas da viagem: um safári em mar aberto atrás das baleias.
Navegamos por uma hora e meia em direção ao oceano gelado da Noruega. Enquanto o barco subia e descia nas ondas imensas do mar aberto e algumas pessoas ao nosso redor começavam a passar mal com o balanço, nós aproveitamos para nos aquecer com a sopa, o café e as bolachas que serviam a bordo. E então, eles apareceram. 
Conseguimos avistar os gigantes do mar emergindo das águas profundas. É uma daquelas experiências em que o que os olhos veem, as câmeras simplesmente não conseguem capturar. Muito daquela emoção ficou guardado puramente na memória e no coração. Gostaríamos de ter visto as famosas orcas, mas não era o dia delas; fica para uma próxima oportunidade.
                      Farol de Andenes
Para continuar subindo o mapa, pegamos outro ferry boat, desta vez em uma navegação de 1h40 até a mítica ilha de Senja. Essa escolha foi estratégica para que a nossa rainha, a Lissie, não sofresse nenhum estresse, já que ela pôde ficar tranquila e confortável dentro do camper durante todo o trajeto.
Ainda do barco, a visão de Senja impressiona: a grandiosidade das montanhas pontiagudas encontra o azul profundo do mar em um contraste violento. Dizem que esta ilha é uma "Noruega em miniatura", e bastaram poucos quilômetros ali dentro para acreditarmos nisso.
Paramos, jantamos e pernoitamos na beira de um dos fiordes da ilha. A paz de estar acampado ao lado da estrada, com uma vista indescritível e uma sensação absoluta de liberdade e segurança, é algo que só a Noruega proporciona.
Mas como a vida na estrada não é feita apenas de cartões-postais, os perrengues sempre dão as caras. Desta vez, um problema antigo resolveu cobrar a conta. Logo no início da viagem pela Noruega, passamos por um daqueles trechos de obras na pista — algo muito comum no verão deles — e uma pedrinha saltou do asfalto e bateu no para-brisa. Até aí, parecia apenas uma marca boba. O problema é que agora, com o choque térmico e o balanço dos ventos, a trinca "acordou" e começou a andar pelo vidro. O veredito é inevitável: teremos que trocar o para-brisa inteiro. Será uma corrida contra o tempo nesta próxima semana para resolver a burocracia e a mecânica.

Apesar do vidro trincado, a bússola do camper continua apontando firmemente para o norte. Quem sabe o que o destino nos reserva nos próximos quilômetros? A aventura continua!

Comentários

  1. Respostas
    1. Quanta aventura …🥰. Aproveitem bastante. Consertar o vidro será só o “ pqno detalhe” do grandioso passeio .. Deus vos proteja … sempre (Manda beijo pra Lizzie)

      Excluir
    2. Deus abençoe 🙏 obrigado por gostar

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

O Horizonte na Janela: Crônicas de um Camper pela Escandinávia - Capítulo 1

O Horizonte na Janela: Crônicas de um Camper pela Escandinávia - Capítulo 2

O Horizonte na Janela: Crônicas de um Camper pela Escandinávia - Capítulo 5