O Horizonte na Janela: Crônicas de um Camper pela Escandinávia - Capítulo 5

Capítulo 5: MUDANÇA DE PLANOS, CASAS COLORIDAS E O SEGREDO DOS ESTENDAIS DE PEIXE
Por do sol na Noruega
A poucos quilômetros daquela praia que havia sido quase nossa, a estrada continuou nos puxando para o norte. Passamos a noite seguinte em uma marina charmosa, estacionados ao lado de um mercado local e de uma prainha linda. Escolhemos uma área com suporte de eletricidade — uma necessidade constante na nossa rotina para manter as baterias do camper em dia. 
Praia com céu cinzento na Noruega
O céu desabou em chuva e o frio apertou de vez, mas como já tínhamos aprendido, o clima cinzento não tira a majestade da Noruega; as paisagens continuavam estupendas através dos vidros molhados do carro.
Finalmente chegamos a Bodø. Paramos em um estacionamento ao lado de um posto de combustível, também com ponto de energia, e ali a chuva e o frio fincaram pé de vez. Decidimos ficar duas noites. Quem vive na estrada sabe que esses momentos de pausa forçada pelo clima são, na verdade, disfarces perfeitos para o planejamento. Precisávamos decidir nosso próximo passo estratégico.
Posto combustivel parking camper Noruega
Nosso plano inicial era pegar o ferry boat direto de Bodø para cruzar o mar aberto até as Ilhas Lofoten. Porém, a tempestade não dava trégua. Seriam três horas e meia de navegação balançando em um mar revoltado. Pensamos imediatamente no bem-estar da nossa tripulante mais importante: para viajar naquele navio de grande porte, a Lizzie provavelmente teria de passar a travessia isolada em uma gaiola na área de carga.
Não havia a menor chance de fazermos isso com ela.
Redesenhamos a rota na hora. O objetivo continuava sendo Lofoten, mas decidimos seguir dirigindo por terra mais ao norte até Bognes, de onde pegaríamos uma balsa bem menor, para uma travessia muito mais tranquila e acolhedora de apenas uma hora.
Ao pegarmos a estrada contornando os fiordes, soubemos que tínhamos tomado a decisão certa. A cada curva, nossos olhares se cruzavam maravilhados. Atravessamos vales profundos, florestas densas e incontáveis cachoeiras que brotavam das rochas. 
Foto do retrovisor pelas estradas da Noruega
Mas o que realmente roubou a cena foram as casas de madeira norueguesas. Uma mais linda que a outra, com seus quintais cirurgicamente bem cuidados. Algumas eram brancas, outras amarelas, mas a grande maioria brilhava em um tom de vermelho vibrante contra o verde da paisagem.
Pesquisando sobre o país, descobri um fato histórico fascinante: no passado, a cor da sua casa na Noruega mostrava o tamanho da sua conta bancária. 
Casa amarela símbolo século XVIII e XIX
Entre os séculos XVIII e XIX, os pigmentos das tintas tinham valores muito diferentes. O branco era o símbolo máximo de ostentação e riqueza, pois levava zinco, que era caríssimo; o amarelo vestia as casas da classe média; e o vermelho era a tinta mais econômica, feita à base de óleo de fígado de bacalhau e óxido de ferro. Nos dias de hoje, a história mudou. A paleta econômica deu lugar ao orgulho da tradição, e os noruegueses ricos de hoje adoram tons modernos como cinza-escuro e preto — que, além de elegantes, ajudam a reter o calor do escasso sol ártico.
No meio desse trajeto, o Park4night nos deu outro presente. Desviamos por uma estrada estreitíssima e fomos parar em um verdadeiro achado: um lago deserto rodeado por montanhas brutais e imponentes. 
Montanhas na Noruega
A chuva deu uma trégua rápida e a Lizzie aproveitou cada segundo de liberdade, correndo desajeitada e feliz por uma praia de águas tão cristalinas que pareciam irreais.
Dormimos naquele santuário e, logo cedo, partimos para o porto de Bognes. Embarcamos naquele que foi um dos maiores ferries de toda a nossa jornada. Uma hora depois de uma navegação suave e sem sobressaltos para a nossa Cavalier, a balsa atracou. Ufa, finalmente estávamos em Lofoten!
Ferry boat Ilhas Lofoten
Apontamos o camper para o lado oeste das ilhas. Paramos para almoçar à beira do deslumbrante lago Øvre Kåringsvatnet e, como a chuva voltou a cair sem piedade, decidimos que ali mesmo passaríamos a nossa primeira noite oficial no arquipélago.
Aproveitando o embalo das ilhas, seguimos pela rota litorânea até o extremo norte da ilha de Langøya, chegando a uma vila de pescadores tradicional chamada Stø, no arquipélago vizinho de Vesterålen.
E foi em Stø que finalmente começamos a desvendar o grande mistério do bacalhau norueguês. Continuávamos sem conseguir encontrar o peixe para comer nos mercados — afinal, a frota local direciona quase toda a produção diretamente para a exportação mundial —, mas ali nós vimos de perto a engrenagem de como tudo funciona. Descobrimos na vila os imensos estendais de secagem de peixe modernos, uma estrutura de madeira tradicionalíssima que sustenta a economia local há séculos. 
estendais de secagem de peixe modernos
Os peixes são pendurados ali para secar ao vento ártico, protegidos por imensas redes. Descobrimos também o porquê das redes: as gaivotas dali são gigantes e adoram roubar o estoque dos pescadores! Uma pena que chegamos logo após o que os locais chamam de "a colheita"; o processo de secagem ao ar livre tinha acabado de terminar e os bacalhaus haviam sido recolhidos para os galpões, onde aguardavam o embarque para as mesas de Portugal e do Brasil.
Até agora, a vida selvagem tem sido tímida conosco. Nesta semana, nosso desejo de ver de perto um alce imponente ou um veado correndo pelas florestas ainda não se realizou; tivemos de nos contentar com as pequenas ovelhas que pastam indiferentes à beira da estrada. Mas quem viaja de camper não perde a esperança nunca. Só precisamos que a chuva colabore um pouquinho.
Nossa programação para os próximos dias é ousada: subir até o topo de Andenes e, depois, apontar a rota para a mítica cidade de Tromsø. A fronteira com a Finlândia está desenhada no nosso horizonte mais próximo.
Segurem os cintos, porque os próximos capítulos prometem!

Segue nosso Blog...a cada semana um novo capítulo.

Comentários

  1. Isso mesmo …. Fé no propósito 🙏. Boa viagem
    Muito legal poder acompanhar as vossas aventuras ❤️

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