O Horizonte na Janela: Crônicas de um Camper pela Escandinávia - Capítulo 2
Capítulo 2: Uma Italiana no Ártico e o Direito de Acordar no Paraíso
Viajar de camper exige desapego, mas há coisas de que não abrimos mão. A maior delas atende pelo nome de Lizzie. Nossa companheira de quatro patas é uma Cavalier King Charles Spaniel legítima: nascida na ensolarada Itália, mas que acabou se tornando uma autêntica desbravadora do norte europeu.
Se a Suécia nos testou com suas regras de estacionamento apertadas, a Noruega nos deu o maior presente que um caravanista pode receber: a lei do Allemannsretten, o direito de livre circulação. Aqui, a natureza não tem dono. Desde que você respeite o meio ambiente e a propriedade privada, a liberdade de pernoitar no meio do nada é garantida por lei. E nós levamos isso muito a sério.
Nossa primeira noite em solo norueguês foi na histórica cidade de Halden. Ali, o motor do camper finalmente silenciou e nós pudemos respirar: estávamos mesmo na Noruega.
No dia seguinte, a estrada começou a subir e nos levou até Edland, onde escolhemos o lago Kjelaai para passar a noite.
Estacionamos ao lado de um riacho de águas tão cristalinas que pareciam filtradas. Dormir e acordar com o som suave daquela água correndo, sabendo que tudo o que precisávamos estava dentro daqueles sete metros de carro, nos trouxe um deslumbramento difícil de explicar. Ali, no início da viagem, entendemos o real significado de estar livre.
Mas a Noruega gosta de mudar de cenário rápido. Pouco depois, atingimos as altitudes elevadas e nos deparamos com o lago Stavatn. Foi um choque visual. Estávamos no topo da montanha, ao fim do mês de maio, cercados por paredões de neve e diante de um lago completamente congelado. Paramos o camper imediatamente. O contraste do branco da neve com o azul profundo do céu era de tirar o fôlego. As fotos daquele dia viraram registros eternos de um inverno que teimava em não ir embora.
Continuando a nossa caçada planejada, chegamos a Låtefossen, as famosas cachoeiras gêmeas em Skare. A força da água ali é tão brutal que a estrada passa literalmente por cima de uma ponte de pedra salpicada pelo spray da queda.
Decidimos que ali seria nosso hotel cinco estrelas daquela noite. Estacionamos tão perto que, ao abrir a janela, dava para sentir as microgotas de água gelada batendo no rosto.
Depois de Låtefossen, perdemos a conta das cachoeiras. Foram dezenas pelo caminho. Em algumas, apenas encostávamos o camper na beira da estrada para registrar uma foto rápida; em outras, passávamos a noite ouvindo a canção de ninar da natureza. A verdade é que a memória humana é pequena para guardar tanta beleza, e os olhos quase cansam de ver tanto cartão-postal seguido.
Nesse trajeto, descobrimos outra característica fantástica da infraestrutura norueguesa: a praticidade dos ferry boats. O país é tão recortado por fiordes que, muitas vezes, a estrada simplesmente termina na água. Mas não há estresse. Em poucos minutos, um ferry enorme encosta, você entra com o camper, cruza o fiorde navegando entre montanhas gigantescas e, do outro lado, a estrada recomeça. É de uma eficiência cirúrgica que torna a viagem incrivelmente fluida.
Foi justamente após cruzar essas águas que chegamos à charmosa cidadezinha de Vikøyri. À beira do fiorde, com aquele visual dramático das montanhas ao fundo, o luxo da simplicidade atingiu o ápice. Minha esposa preparou uma porção deliciosa de camarões frescos ao ar livre. Sentados ali na nossa estrutura, saboreando os camarões e
brindando com um belo Aperol Spritz bem gelado, olhamos um para o outro. Nenhum restaurante três estrelas Michelin no mundo conseguiria cobrar o preço daquela mesa e daquela vista.
Com a alma lavada e o paladar satisfeito, continuamos subindo o mapa até avistarmos as torres de pedra de Ålesund, conhecida mundialmente como a capital do bacalhau. Como bons viajantes, nossa expectativa era óbvia: estacionar o camper e nos esbaldar com o famoso peixe que abastece as mesas de Portugal e do Brasil.
A realidade? Não conseguimos comer o bendito bacalhau e, ironicamente, mal conseguimos encontrá-lo por lá! Descobrimos que a maior parte da produção vai direto para exportação, deixando os turistas apenas com o cheiro da história.
Mas se faltou peixe no prato, sobrou cultura na bagagem. Ålesund é uma cidade fascinante que renasceu das cinzas — literalmente. Em uma noite trágica de inverno em 1904, um incêndio devastador destruiu praticamente toda a cidade, que na época era feita quase inteiramente de madeira, deixando mais de dez mil pessoas desabrigadas.
O que poderia ter sido o fim de Ålesund tornou-se sua maior virada. A cidade foi reconstruída em tempo recorde com uma arquitetura de pedra e tijolo no estilo Art Nouveau, cheia de torres e ornamentos que parecem saídos de um conto de fadas. E adivinhe quem financiou essa transformação monumental? Exatamente: o comércio e a venda do bacalhau. O peixe que não encontramos no prato estava impresso na força de cada parede de pedra daquelas ruas lindas.
Dizemos adeus à elegante Ålesund com a despensa do camper ainda abastecida com nossos alimentos caros do supermercado, mas com a mente cheia de novas imagens. A neve nos picos e as patinhas da Lissie continuam a nos guiar rumo ao norte. A Finlândia nos espera, mas a Noruega ainda tem muito asfalto para queimar.
Aguardando... capítulo 3
que paraiso, com certeza voces estao vivendo experiencias que dificilmente algum normal é capaz de imaginar, adorei esse capitulo
ResponderExcluirVerdade, a experiência é muita mais que guardamos na memória. Obrigado
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