O Horizonte na Janela: Crônicas de um Camper pela Escandinávia - Capítulo 4

Capítulo 4: Rompendo o Círculo Polar, Noites Sem Fim e o Chamado de Lofoten
Fronteira norte da Noruega
Esta seria a fase do nosso planejamento focada em devorar asfalto. Nosso grande objetivo eram as Ilhas Lofoten, e o plano era usar a estrada E6 — a grande espinha dorsal que corta a Noruega — para chegar até a cidade de Bodø, de onde pegaríamos o ferry boat para cruzar o mar. 
Como não tínhamos nenhum ponto turístico famoso mapeado nesse miolo do caminho, chegamos a pensar que o trajeto seria monótono.
Ovelhas a passear nas estradas da Noruega
Que tolice a nossa. A Noruega adora pregar peças em viajantes pretensiosos.
A cada trecho rodado, a paisagem ia se alterando de forma drástica. Tudo se transformava diante dos nossos olhos. Nossa primeira parada marcante foi em Nordlandsporten, o imponente portal que marca a fronteira física do norte do país.
Nordlandsporten
Logo depois, desviamos para conhecer a magnífica cachoeira Laksforsen. O volume de água ali é estupendo, uma força bruta da natureza que hipnotiza. 
cachoeira Laksforsen
Aos pés da queda d'água há um restaurante panorâmico belíssimo; até poderíamos ter sentado em uma de suas mesas para almoçar com aquela vista, mas o custo de uma refeição na Noruega é um pouco salgado para o orçamento de quem vive na estrada. Olhamos, fotografamos e seguimos felizes com a nossa cozinha sobre rodas.
Mais adiante, paramos no Annbjørn Haugen Camping. Como ainda não somos totalmente autossuficientes em energia, precisávamos recarregar as baterias do camper na eletricidade. 
Annbjørn Haugen Camping
Fomos recebidos por proprietários incrivelmente simpáticos em um lugar idílico: um rio corria logo atrás do terreno e, ao fundo, montanhas imponentes ostentavam os últimos resquícios de neve. 
Na manhã seguinte, após o café e o indispensável passeio matinal da Lizzie à beira daquelas águas cristalinas, ligamos o motor com uma meta clara: cruzar a linha do invisível.
Rompemos a barreira do Círculo Polar Ártico, na latitude 66° 33' Norte. 
Circulo Polar Artico
Ali, o cenário muda de forma chocante. A vegetação silencia, a neve teima em cobrir o solo e um clima místico toma conta do ar. 
Circulo Polar Artico
Estávamos oficialmente no norte do mundo. Sentir aquele frio cortante e pisar na neve em pleno mês de junho é uma sensação indescritível.
Dica de viajante: Para encontrar os melhores lugares para pernoitar, nosso aliado indispensável tem sido o aplicativo Park4night. É o mapa da mina para qualquer caravanista.
Foi graças a ele que, após o Polo Ártico, encontramos um refúgio espetacular. Jantamos e pernoitamos literalmente no meio de uma floresta, no cruzamento de dois rios de águas tão puras e transparentes que, se não estivessem congelantes, teriam rendido um mergulho. O local contava com mesas de piquenique e a permissão para acender uma fogueira no meio da mata. 
Mesa de picnic as margens do rio no meio da floresta
Achávamos que estaríamos completamente isolados por ser distante da estrada, mas logo ganhamos a companhia de outros campers.
Ali, observando ao redor, percebemos como a liberdade está impregnada no ar da Noruega. Cruzamos com pessoas viajando apenas em carros comuns adaptados, desbravando estradas com o mínimo necessário, e grupos de motoqueiros aventureiros enfrentando o clima ártico sobre duas rodas. O que era para ser apenas uma noite naquele cruzamento de rios acabou virando duas. Não queríamos ir embora.
Mas o objetivo final nos chamava. De volta à rota de Bodø, como bons caçadores de cachoeiras, fizemos mais um registro obrigatório na imponente cascata de Valnesfossen. As fotos já dizem tudo.
cascata de Valnesfossen
Como o sol andava meio tímido, escondido atrás das nuvens nas montanhas há quase uma semana, decidimos mudar o plano: desviamos em direção ao litoral. E o universo nos recompensou generosamente quando chegamos a Langsanden. O lugar é magnífico. Encontramos uma área gratuita perfeita para campers, equipada com banheiros e — um verdadeiro milagre na estrada — uma ducha deliciosa com água quente. 
Atrás de nós, paredões gigantescos de pedra nos faziam sentir minúsculos; à nossa frente, uma praia de areia clara que seria inteiramente nossa, se não fosse o frio e o chuvisco persistente. Mas para a Lizzie, o clima pouco importava; ela se esbaldava com aquela liberdade imensa, absorvendo todos os cheiros novos que a vida inteira morando em um apartamento havia lhe privado.
Lizzie passeando nas areas da praia na Noruega
A Noruega premia quem tem paciência. De repente, o céu abriu. O sol apareceu triunfal e nos acompanhou até depois da meia-noite. É uma experiência quase surreal: não existe noite. O sol pode até flertar com as nuvens, mas o céu permanece claro o tempo todo. 
Sol da meia noite na Noruega
Para conseguirmos dormir e enganar o nosso relógio biológico, o jeito é fechar hermeticamente todas as cortinas do camper.
Cada parada turística revela lojas de souvenires com artesanatos tão lindos que precisamos nos segurar para não estourar o limite do cartão. Agora, cruzamos os quilômetros finais antes do porto. Enquanto a Lizzie observa a paisagem pela janela, uma ansiedade boa toma conta do camper. Estamos prestes a entrar nas Ilhas Lofoten.
Fica no ar a expectativa: será que nas próximas estradas vamos cruzar o caminho com alces, veados ou os imponentes bois-almiscarados? E quando estivermos navegando ou olhando para o mar daquelas ilhas paradisíacas, será que conseguiremos avistar orcas, cachalotes, toninhas e focas?
O horizonte está aberto. Veremos. E mal podemos esperar para contar.

Segue nosso Blog...a cada semana um novo capítulo.

Comentários

  1. Que passeio maravilhoso! Top demais … o lugar é lindo ! Estamos passeando junto 😉😍

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  2. Deus abençoe vocês! Obrigado por estar nos acompanhando Bjs

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